Alguma coisa orgânica está em desordem. O que eu ainda estou fazendo aqui? Talvez se eu falasse de trás para frente (?) Dedos de borracha? Acho que eu não estou mais prestando. 30 anos engraxando sapatos, acho que eu estou ficando sem graça; )
Agora estou tentando escrever um pequeno texto intitulado Filhos da Rua Silva.
Sabe quando a sua vida dá um 360 em sentido anti-horário, e em seguida um 180 para frente? Ou quando você tem aquela estranha sensação de que te puxaram o tapete, ou quando o mundo aos seus pés desabou? Pois foi isso o que aconteceu comigo naquele dia 26 de março pela manhã, já nem me lembro mais o ano, 2009?
Era um dia lindo, e eu tinha mil planos: dar um rolê até a beira do Rio Atibaia em Paulínia com meu velho fordinho por aquela estradinha sinuosa e agradável; depois voltar, trocar o pneu, refogar algumas abobrinhas, cozinhar a mandioca, lavar o quintal, podar as plantas dos vasos, dar milho aos pintinhos. Coisas assim.
Nem sei por onde começar; o que dizer primeiro. No começo foi muito difícil. Acordava no meio da noite em minha cama de criança num barraco na periferia de Hortolândia, à beira de um matagal, ouvia no escuro um menininho me chamando, “Pai!”. Olhava então para os lados e via apenas a silhueta de dois malucos dormindo em suas camas, um de cada lado, e em seguida enfiava a cabeça no travesseiro e chorava em silêncio. Foi muito difícil assimilar tudo aquilo, porque, além de um corpo material, descobri que também somos um corpo sutil, que vulgarmente chamam de mente, “espírito”, ou consciência, e que outros ainda chamam alma.
Mas o tempo é senhor de todos os males, e tudo passou. Agora estou no pequeno templo ouvindo vozes de uma briga no apartamento ao lado, o 704, onde mora uma senhora com sotaque italiano, a qual, pra dizer a verdade, eu nunca vi. Ela xinga alguém em altos brados “Desgraciatto! Desgraciatto!”. Aliás, eu nunca sei quem mora onde nesta colméia, pois apenas nos encontramos anonimamente pelos elevadores.
Acordei no dia seguinte com a senhora de vestido preto e bolinhas brancas do andar de baixo tocando a 9ª Sinfonia de Beethoven em seu piano sem cauda. Abrindo lentamente os olhos, percebi algumas nuvens brancas desfilando no céu, e ouvi, misturando-se às notas daquela melodia, o canto de alguns pássaros nas árvores da praça em frente ao prédio. Procurei por meus chinelos havaiana. Meu pé está queimando de tanto descer e subir morros, meus dedos menores do pé esquerdo parecem travar uma luta mortal. Agora um comichão... Legal isso! Meu pé come chão. Talvez por isso esteja queimando Acredito que todo o meu corpo seja inteligente, e não só a cabeça. Isso. Todo o meu corpo pensa, sente, tem emoções, e deseja falar, expressar-se; mas, apenas meu cérebro, ou o córtex esquerdo, como um tirano, deseja controlar tudo, filtrando o que deve e pode ser dito, e o que não pode, desviando o restante para algum lugar escuro, aonde a razão não chega. Um esconderijo secreto, que não se consegue localizar para colocar na porta uma placa escrito “inconsciente”; mas que está lá, protegendo nossas emoções e pensamentos diariamente censurados.
Somos todos animais. Conheci, acidentalmente, uma jornalista e...
Assim, só não me matei ainda porque acredito que em breve serei salvo ou abduzido, resgatado por uma Mente superior e levado até Júpiter. Uma super-Mente que está brincando comigo, me testando até o extremo, para que eu de fato evolua até onde der; para, só então, ser resgatado deste inferno sem sentido em que um dia me meteram.
Assim, se quiser adiantar esse embarque, esse resgate, preciso me livrar o mais rápido possível desses desejos mundanos; preciso parar de desejar objetos, bundas, mulheres, peitos, chocolate Garoto meio amargo, miniaturas de ferro, e falso conhecimento terráqueo (FCT) espalhado pelas livrarias da cidade, e tudo o mais que tem por aqui; mas que é pura ilusão, pura besteira. Penso, talvez, em iniciar uma greve de fome e acabar logo com isso.
Lá vem a Sra. Baranga com cara de arara do 402 arrastando os tamancos. Como deve sofrer o Sr. Hamster, tendo que parecer perfeito, tendo que esconder todos os dias o lixo do escritório embaixo do tapete.
As pessoas falam demais em meus ouvidos. Mas eu não estou nem um pouco interessado nisso, porque sei que falam apenas o que querem que seja ouvido. Assim como cada qual vê o que quer ver. Mostram apenas o lado “A” do disco (o discurso), e escamoteiam o tempo todo o lado “B” (a personalidade), o que destoa, quando se confronta o que dizem com as atitudes que tomam, ou como reagem quanto estão no “piloto automático”. Então; ora, dá licença! Tenho mais o que fazer lá em casa, Tio Bob; ( grrr..
Eu nunca sentiria tesão por aquela senhora, a dona Leda, pensava, vendo-a abaixada, pegando uns panos em seu balde de plástico. Podia observar sua anca ossuda e cheia de estrias, e até achava-a tão amável; mas nada nela me excitava; muito pelo contrário, me deixava cabisbaixo. Pedi-lhe então um pano e o frasco de álcool gel emprestado para limpar o monitor e saí de perto o mais rápido possível, antes que ela me notasse. Putz, meu! Essa mulher deve ser maluca! Com um cabelão daquele tamanho, parece a Rapunzel;
Vejo a sogra na janela. Minha combinação deve estar aparecendo. As pessoas na Campos Salles olham pra minha cintura, toda vez que coloco essa droga de camiseta lilás tipo baby look e o 38 taradão fica se exibindo.
No estacionamento do mercado municipal uma senhora com cabelos grisalhos e óculos de Sol com lentes espelhadas, quase sumindo no banco de um Fiat Uno de tão baixinha, grudada ao volante com a cara colada no para-brisa, passou a milhão, quase atropelando meu All Star. Gritei-lhe em pensamento: “Tia Assassina!”. Ainda a vejo olhando assustada pelo retrovisor com aquela cara de pedra de praia.