e s q u e c i m e n t o s





Alguém, levado pela enxurrada de lágrimas, como uma 750 Four, desce pela descarga na casa da filha da minha vizinha. Ela só tem 23, dentro da caixa de clipes, como agora antes de palitar os dentes alguém invisível se aproxima silenciosamente da porta e fica ali parado, respirando baixinho, com seu machado invisível nas mãos, descansando-o entre as pernas, esperando o momento em que eu me levante e me dirija até o armário posicionado do outro lado da janela, e abra a primeira gaveta, onde há uma etiqueta escrito "esqueça", e dali retire um pequeno saco cheio de bactérias e mentiras, e o leve até o andar de cima para o Sr. Hamster, que faz palavras cruzadas, quebrando as pontas do seu lápis nº 2, atirando-as no triturador de ideias embaixo de sua mesa. Não, não vai dar certo eu tingir os cabelos e voltar aqui amanhã dizendo ser outra pessoa, e sentar-me nessa cadeira vazia e passar o dia inteiro folheando livros insanos, sem nada dizer, apenas rindo, com parafusos prendendo minhas costas ao encosto da cadeira, e eu apenas rindo, como se fosse uma marionete que perdeu a memória, como um evento, e não uma pessoa aplicada, mergulhada em significados lógicos e emotivos. Uma mente que tenta se justificar a todo momento, provando sua existência por meio de imagens oníricas penduradas nas paredes, tomando vitamina com os colegas. Vamos lá, Maria Onette! Espere, estou desligando os aparelhos. Mais tarde nos encontramos na casa de sucos da Benjamin Constant, e comemoramos nossa ignorância, rindo como pobres diabos, como se soubéssemos de tudo, como se fossemos os donos da vaidade.