Não posso falar toda a verdade, de forma completamente escancarada, porque, nesse caso, seria preso, tragado pelo Túnel do Tempo e, com certeza, triturado com outros documentos. Assim, só me resta continuar dizendo meias mentiras de seda pura da Índia, caso você as compreenda, me darei por satisfeito.
Segunda-feira. O computador demora para se abrir. O frio do mouse tá enroscado nas minhas vestes, que tremulam como bandeiras no varal improvisado com fios elétricos no meio-dia da sala. Vesti as calças do meu pai? As letras agora estão caindo. Estarão ficando fora de moda? Minhas calças estão largas? Ou eu que estarei sumindo? Cada trecho do teclado tem sua configuração própria, é com muita incompatibilidade e bestialidade que encontro neste a tecla? Algumas garotas padecem sofrer da Síndrome do Lobo Mau, pois sempre que as cumprimento, seus olhos parecem querer me dizer “Vamos logo pra sua toca". Calma gente, não é bem assim; pelo menos é o que eu penso (neste exato momento; ( e não vamos mais pensar sobre isso) A sinusite voltou a atacar novamente meu nariz quando dobrei a esquina da Encarnação com a Orozimbo Maia. Tempo seco. Acordei de madrugada com dor de cabeça pelo corpo todo; mas a dona Leda não está nem aí, e varre o carpete causando uma catástrofe ecológica. Depois me traz o café. Ai, meu Bom Jesus de Piraporra! Na rua uma senhora de 300 kg (karma gente) quase me leva no peito. Talvez eu esteja realmente sumindo de vez e não saiba; (ao menos desta vez, fiz questão de usar uma virgulinha no lugar certo e o verbo no tempo errado, só para ver o que acontece – e não é que não aconteceu nada? Estou tranqüilo agora. É hora do almoço. Abro minha necessaire e retiro um sanduba de calabresa. Estou apenas tentando curar a minha loucura. Por favor, cure a sua. A linguiça pula do pão fazendo com que Duque se levante e se aproxime lentamente, arrastando o nariz no chão, como se farejasse meu poema. Mas...
A verdade é que eu não sei o que escrever, ou melhor, não tenho nada para escrever, apenas uma necessidade muito louca de descrever tudo o que sou capaz de perceber e imaginar gesticulando aos transeuntes, sempre de alguma janela, seja do ônibus em movimento, da porta do bar, nas escadas rolantes do shopping, ou mesmo assim, como agora, parado no meio da faixa de pedestres, imobilizado, por uma fração de segundos, pensando “O que significa tudo isso?”, já sabendo de antemão que não haverá nenhuma resposta satisfatória para esse tipo de pergunta; que qualquer resposta, fosse ela dada por um desses estudiosos da vida, por um leigo, ou mesmo pelo Fabiano, daria na mesma, seria apenas merda jogada em direção ao disco solar. Melhor então apontar o lápis e descer até a sala da pequena Juddy e levar-lhe um daqueles bombons de chocolate com recheio de passas ao rum que ela tanto devora.