Acordei às dez com vontade de comer alguém, sentindo cheiro de frango assado com batata frita e salsicha cheia de sangue, imagine que eu, um cidadão nascido em iThumb-ara, que passava dias com o pai no meio de uma mata fechada, catando gravetos e caçando pererecas e passarinhos, vai agora acordar às 09h00 da manhã, esquentar o pão com manteiga na frigideira e preparar um Toddynho com Kellogs para depois sentar a bundinha branca cheia de estrias e pelos numa almofada ensebada bordada com fios de lã dourada, comprada em qualquer brechó, e depois ficar escrevendo versinhos insossos aos amigos, falando de nuvens e carneirinhos, florzinhas e tatuzinhos. Ora, vai se catar! Melhor acordar entre o artista e a obra de arte por ele produzida, há uma grande distância de um porco. De modo que, olhando através de uma pequena fresta na cortina da sala, posso ver lá embaixo na Terra dezenas de pessoas passando apressadas, umas atrás das outras, como formigas alucinadas atrás de uma pedra de açúcar. Umas usam blusas azuis, outras carregam pacotes, bolsas a tiracolo, entrando e saindo das lojas. E eu? Nem sei quem sou. Quem eu era mesmo ontem à noite antes de dormir? E durante a madrugada, enquanto eu sonhava, quem era eu? E quem acabou de acordar? Unhéé!... Certamente não deve ser eu este sentado à porta do Templo Votivo vendendo flores. Não pode ser eu, porque não se pode saber hoje o que vai se criar amanhã, porque nós não somos nada não somos nós quem na verdade criamos nossos sonhos, e sim, apenas somos manobrados à revelia pelo tempo, levados numa enxurrada. Falo aqui de eventos catastróficos, como aquela tsunami naquela manhã, e não de pessoas programadas para dizer bom dia, boa tarde. Porque, quando buscamos de fato fazer filosofia, analisando a realidade ao nosso redor e o momento presente, de certa forma, estamos nos relacionando com o Atman, o eu individual, e determinadas circunstâncias da vida. E isso, ao meu ver, não esclarece nada. Não ilumina nada. Não traduz nada. Toda filosofia produzida assim não passa de um ninho de baratas escondido atrás do visor, no fundo do microondas. Um homem sério não deveria perder tanto tempo assim, transformando vento em símbolos estéticos e gramáticas, tentando convencer a si mesmo de que está produzindo algo de útil e necessário para o bem estar de seus semelhantes. Eu não. Menos eu. Que desligo o gás, recolho o sexto de lixo do banheiro sem nojo da merda e aperto o botão T de térreo todos os dias e desço correndo para a vida.